segunda-feira, 22 de agosto de 2016

A pessoa deixa de ser usuária, mas a dependência química persiste


 


Jornal Folha de S. Paulo
Drauzio Varella
Líbero/Editoria de Arte/Folhapress

As drogas causadoras de dependência ativam o sistema de recompensa existente no cérebro.

Lícitas ou não, todas provocam aumento rápido na liberação de dopamina, neurotransmissor envolvido nas sensações de prazer. O prazer intenso dá origem ao aprendizado associativo (droga-prazer-droga), que constitui a base do condicionamento.

Com a repetição da experiência, os neurônios que liberam dopamina já começam a entrar em atividade ao reconhecer os estímulos ambientais e psicológicos vividos nos momentos que antecedem o uso da substância, fenômeno conhecido popularmente como fissura.

É por esse mecanismo que voltar aos locais em que a droga foi consumida, a presença de pessoas sob o efeito dela e o estado mental que predispõe ao uso pressionam o usuário a repetir a dose.

O condicionamento que leva à busca da droga fica tão enraizado nos circuitos cerebrais que pode causar surtos de fissura depois de longos períodos de abstinência. A pessoa deixa de ser usuária, mas a dependência persiste.

As recompensas naturais –como aquelas obtidas com alimentos saborosos e o sexo– também estão ligadas à dopamina, mas nesses casos a liberação é interrompida pela saciedade. As drogas psicoativas, ao contrário, armam curtos-circuitos que bloqueiam a saciedade natural e mantêm picos elevados de dopamina até esgotar sua produção.

Por essa razão, comportamentos compulsivos por recompensas como comida e sexo são mais raros do que aqueles associados ao álcool, nicotina ou cocaína.

O condicionamento empobrece os pequenos prazeres cotidianos: encontrar um amigo, uma criança, a beleza da paisagem. No usuário crônico, os sistemas de recompensa e motivação são reorientados para os picos de dopamina, provocados pela droga e seus gatilhos antecipatórios.

Com o tempo, a repetição do uso torna os neurônios do sistema de recompensa cada vez mais insensíveis à ação farmacológica da droga, fenômeno conhecido como tolerância.

A tolerância reduz o grau de euforia experimentado no passado, aprofunda a apatia motivacional na vida diária e leva ao aumento progressivo das doses e às mortes por overdose.
É por causa da tolerância que todo maconheiro velho se queixa da qualidade da maconha atual.

Como parte desse mecanismo, os neurônios que formam o sistema antirrecompensa ficam hiper-reativos.

A sensação de prazer, agora mais fugaz e menos intensa, vem seguida de uma fase disfórica que se instala no espírito do dependente assim que o efeito da droga se dissipa. A pessoa deixa de buscá-la simplesmente pelo prazer do efeito, mas para fugir da apatia e depressão que a atormentam quando ele se esvai.

A produção deficitária de serotonina resultante do uso crônico também se instala no lobo pré-frontal, área do cérebro que modula a flexibilidade, a seleção e a iniciação das ações, a tomada de decisões e a avaliação dos erros e acertos.

O desarranjo das sinapses dos neurônios pré-frontais enfraquece a resistência aos apelos da droga, mesmo quando a intenção de abandoná-la é verdadeira.

As alterações dos circuitos pré-frontais ao lado das que acontecem na circuitaria responsável pelas sensações de prazer, recompensa e respostas emocionais tecem o substrato para a instalação gradual do comportamento compulsivo, descontrolado, que compromete a motivação para enfrentar a abstinência, mesmo diante de consequências pessoais catastróficas.

Da mesma forma que nem todos correm igual risco de desenvolver diabetes ou doença cardiovascular, apenas uma minoria dos que usam drogas psicoativas se torna dependente. A suscetibilidade é atribuída à genética e a diferenças na vulnerabilidade.

Fatores que aumentam o risco incluem história familiar (hereditariedade e criação), exposição em idade precoce (adolescência é o período mais vulnerável), características do meio (ambientes estressantes, violência doméstica, desorganização familiar, convívio com usuários) e transtornos psiquiátricos (depressão, psicoses, ansiedade).

Os estudos mostram que cerca de 10% das pessoas expostas às drogas psicoativas se tornarão dependentes. No caso da nicotina esse número é cinco a seis vezes maior.

Drauzio Varella - Médico cancerologista, dirigiu o serviço de Imunologia do Hospital do Câncer. Um dos pioneiros no tratamento da Aids no Brasil e do trabalho em prisões. Escreve aos sábados, a cada duas semanas
Fonte:UNIAD - Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

A cocaína também embarca para o Rio


 



Polícia Nacional do Peru registra aumento no número de ‘mulas’ com destino ao Brasil
JACQUELINE FOWKS
Lima 3 AGO 2016 - 19:30 BRT

No dia 26 de julho, no bairro carioca da Lapa, a polícia brasileira confiscou 93 envelopes de cocaína com o símbolo dos Jogos Olímpicos do Rio e o aviso de “use longe das crianças”. No dia anterior, em uma cidade próxima da fronteira com o Peru, um nigeriano morreu intoxicado depois que algumas das 65 cápsulas de cloridrato de cocaína que ele levava dentro do estômago explodiram. A Polícia Nacional do Peru afirma ter detido neste ano, no aeroporto internacional de Lima, 92 “mulas”, em sua maioria com destino ao Brasil, além de algumas que pretendiam viajar para o México ou para a Espanha.

Egbo Chukwudum Chukwudi, de 53 anos, morreu em Puerto Maldonado (na selva sul do Peru, a 170 quilômetros da fronteira com o Brasil), quando se dirigia rumo a São Paulo, segundo declarou o chefe da Região Policial de Madre de Dios, general Máximo Sánchez Padilla, ao jornal La República. O nigeriano carregava um quilo e meio da droga e partira de Ayacucho, centro de produção de cocaína, para Lima e, depois, para a cidade amazônica.

Citando fontes da Direção Antidrogas (Dirandro), o mesmo jornal informou que alguns burriers são recrutados na África, chegam ao Peu como turistas e embarcam pelo Vale dos rios Apurímac e Ene (VRAE), onde existe a maior área de produção de coca, em direção ao Brasil. As terras no VRAE proporcionam um rendimento superior ao restante do país, podendo conter 20.000 arbustos de coca por hectare, segundo informa o Escritório para a Droga e o Crime das Nações Unidas (UNODC), em Lima.

O Peru é o maior produtor mundial de cocaína, ocupando o segundo lugar na área total utilizada para o cultivo da folha de coca, atrás apenas da Colômbia

“No Peru, um quilo de cocaína pode valer 1.000 dólares, mas a mesma quantidade é vendida em Manaus por 5.000 dólares, e em São Paulo por 7.000 dólares”, informou um policial ao La República.

Segundo o relatório de estatísticas de maio do Instituto Nacional Penitenciário, 2% dos presos no Peru são estrangeiros. Isso equivale a 1.804 pessoas, sendo 50 africanos. O país de origem com maior população carcerária no Peru é a Colômbia, com 264 detidos.

Embora a maioria cumpra pena por roubo com circunstâncias agravantes (27,8%), a taxa de presos por tráfico de drogas, por tráfico com agravantes ou por favorecimento para esse tipo de crime atinge 19%.

Segundo o chefe da Dirandro, várias pessoas que viajam para o Brasil levando cápsulas ovaladas de cocaína líquida podem ser presas em um único dia no aeroporto de Lima. “Suas histórias são tão terríveis que não chegam a se diferenciar muito umas das outras: costuma ser gente de classe média baixa, capaz de arriscar a vida e a liberdade por um punhado de dinheiro”, disse Pantoja àquele jornal.

Os policiais da Direção Antidrogas do Peru assinalam que seus colegas brasileiros já os haviam chamado a atenção para o fato de que o Brasil é o segundo maior mercado consumidor de cocaína do mundo. Calcula-se que, durante a Olimpíada, ele poderá até mesmo ultrapassar os Estados Unidos.

De acordo com um relatório de 2015 do Departamento de Estado dos EUA, o Peru é o maior produtor mundial de cocaína, ocupando o segundo lugar no total de área utilizada para o cultivo da folha de coca, atrás apenas da Colômbia.