quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Dependências: ciúme patológico e o alcoolismo


 


*Por Adriana Moraes
(imagem reprodução)
Caros leitores, o que o ciúme doentio e o alcoolismo têm em comum? As duas patologias levam a dependência e o sofrimento. No ciúme patológico a dependência afetiva e no alcoolismo a dependência química, ambos trazem muito sofrimento.

O ciúme torna-se doentio quando quem o sente passa a ver tudo em todos uma ameaça ao relacionamento, perdendo a noção da realidade e tirando a liberdade do outro, apresentando sentimentos de inferioridade, insegurança, possessividade.

Em sua ampla e profunda complexidade o ciúme tem em sua formulação uma alta dose de medo. Entre esses, medo da perda, da traição, da competição, do outro, de si mesmo. [1]

Alguns especialistas acreditam que o ciúme que atormenta os adultos tem raízes na infância. Desde o início da vida psíquica, a pessoa sente necessidade de ser reconhecido, receber atenção, sentir-se incluído e amado.


(imagem reprodução)
Para entender o que ocorre na mente do ciumento, é necessário compreender o que aconteceu no seu passado, uma busca a procura de detalhes que ficaram na memória inconsciente e que hoje se apresentam de uma forma distorcida. O ciumento expressa o desejo de controlar e possuir unicamente para si a pessoa que se quer bem. Nasce uma demanda de exclusividade do desejo de ser tudo para alguém, da situação de não suportar dividir a atenção da pessoa amada com mais ninguém.

Quando uma pessoa aceita o sentimento de ódio, inerente ao ciúme, podemos dizer que está doente. Afinal, está vivendo para alimentar fantasias de vingança, aceitando trocar chumbo, desprezando pessoas, atropelando o sentimento dos outros, desconfiando de quem nunca deu motivos e, principalmente, cultivando estes sentimentos e comportamentos mesmo quando não está com ninguém. [2]

Ciúme doentio no local de trabalho

Muitas vezes a pessoa que sofre com o ciúme excessivo, parece normal, mas está distante da realidade em que vive e perdeu o autocontrole de suas emoções. Se seu gestor dá uma atenção ou mesmo parabeniza sua colega de trabalho, a pessoa ciumenta sofre com isso. Gostaria de ser a única parabenizada e sente raiva da outra e acredita que consumindo álcool irá aliviar um pouco do seu martírio.

Em sua imaginação a amiga se transformou em sua rival e sente vontade de prejudicá-la. Acredita que seu chefe gosta mais de sua amiga e que até tenham um relacionamento fora do local de trabalho, é tanto sofrimento e uma busca intensa por provas, que ela vai se sentindo cada vez mais angustiada. Passa horas investigando a vida dos dois, em busca de evidências ou mesmo pistas que confirmem o suposto caso. A pessoa ciumenta não suporta a satisfação do outro, sente-se a todo instante rejeitada.

O ciumento distorce tanto a realidade, confia tanto em suas fantasias, que acaba criando uma série de comportamentos que comprovem, dia a dia, para ele mesmo, a teoria de que está sendo jogado para fora do relacionamento. [2]

O que mata o ciumento é a dúvida. Ele vive atrás de detalhes, um simples vestido novo de sua amiga, já é um gatilho para o seu ciúme, imagina que irão sair no final do turno, ou que sua rival irá receber elogios. Seu dia se torna um tormento, a angustia e o copo de álcool, são suas companhias, tudo isso atrapalha seu comprometimento com o trabalho. Como se concentrar, se passa o tempo investigando a vida dos dois?

O ciumento sempre desconfia da outra pessoa. Por isso jamais acredita nela, mesmo que esta consiga provar que suas suspeitas são fantasiosas e infundadas. [1]

Faz questão de dizer a todos que ama seu gestor, mas não percebe que o sufoca e não compreende que ele é apenas seu chefe e devido seu problema com o alcoolismo, poderá afastá-la para se tratar (um direito do trabalhador segurado pelo INSS - Instituto Nacional do Seguro Social), colocando outra (o) profissional em seu lugar até estar em condições de retornar ao trabalhar.

Na matéria do site Agência Brasil, “Alcoolismo é a principal causa de afastamento por transtorno mental” o texto revelou que onúmero de pessoas que precisaram parar de trabalhar e pediram o auxílio devido ao consumo excessivo do álcool teve um aumento de 19% nos últimos quatro anos, ao passar de 12.055, em 2009, para 14.420, em 2013. A matéria informou ainda que a cidade de São Paulo obteve o maior número de pedidos em 2013 por consumo abusivo do álcool, com 4.375 auxílios-doença concedidos, seguido de Minas Gerais, com 2.333. [3]

Síndrome de Dependência de Álcool

A síndrome de dependência de álcool (SDA) é uma condição clínica caracterizada por sinais e sintomas comportamentais, fisiológicos e cognitivos na qual o uso de álcool alcança uma grande prioridade na vida do indivíduo, tendo as demais atividades um plano secundário.

O álcool é uma droga lícita (permita por lei, comercializada de forma legal, exceto para os menores de 18 anos). A dependência do álcool está inserida na Classificação Internacional de Doenças (CID-10), item F 10 (Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de álcool) no grupo de transtornos decorrentes do uso de substância psicoativa.

O consumo de álcool induz tolerância (necessidade de quantidades progressivamente maiores da substância para produzir o mesmo efeito desejado) e síndrome de abstinência (sintomas desagradáveis que ocorrem com a redução ou com a interrupção do uso da substância). [4]

Mulheres e o consumo de álcool

O consumo de substâncias psicoativas entre mulheres é um problema crescente na área da saúde pública. Nas ultimas décadas, as taxas de prevalência de consumo de álcool, tabaco e outras drogas têm aumentado de forma considerável nesse grupo. [5]

**Dr. Claudio Jerônimo da Silva, psiquiatra da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina), nos explicou que:

“As mulheres ficam mais suscetíveis aos efeitos do álcool exatamente porque, fisiologicamente, têm mais gordura retida no organismo, o que acaba por repelir a absorção do álcool pelas células, fazendo com que ele permaneça por mais tempo na corrente sanguínea, o que chamamos de biodisponibilidade do álcool. Isso faz com que seus órgãos passem mais tempo expostos aos seus efeitos nocivos, principalmente os mais sensíveis, como cérebro, fígado e coração, por exemplo”. [6]


Dr. Claudio Jerônimo, explicou com riqueza de detalhes:

No cérebro, o álcool afeta o sistema nervoso central e pode causar perda de reflexo, problemas de atenção, perda de memória, sonolência e coma, que pode levar à morte.
No fígado, altera a produção de enzimas, mudando o ritmo do metabolismo do álcool consumido, ocasionando inflamação crônica, hepatite alcoólica e cirrose.

No coração, o álcool libera adrenalina, que acelera a atividade do sangue no coração, aumentando a frequência dos batimentos cardíacos.

O que acontece quando ingerimos álcool?

[6] Infográfico site da SPDM:


Possíveis efeitos do álcool de acordo com os níveis da substância no sangue:

Baixo

- Desinibição do comportamento;
- Diminuição da crítica;
- Hilaridade e labilidade afetiva (a pessoa ri ou chora por motivos pouco significativos);
- Certo grau de ataxia (perda ou irregularidade da coordenação muscular);
- Prejuízo de funções sensoriais.

Médio

- Maior ataxia;
- Fala pastosa, dificuldades de marcha e aumento importante do tempo de resposta (reflexos mais lentos);
- Aumento da sonolência, com prejuízos das capacidades de raciocínio e concentração;

Alto

- Náuseas e vômitos;
- Visão dupla (diplopia);
- Acentuação da ataxia e da sonolência (até a coma);
- Hipotermia (diminuição excessiva da temperatura normal do corpo) e morte por parada respiratória.

Pesquisas II LENAD e Universidade de Houston

Pesquisa realizada pelo II Lenad (Levantamento Nacional de Álcool e Drogas) entrevistou 4.607 pessoas em 149 municípios em todas as regiões do país. O estudo mostrou o aumento do consumo abusivo de álcool entre as mulheres, especialmente entre as mais jovens. [7]

O levantamento também revelou:

- 8% dos entrevistados admitem que o uso de álcool já teve efeito prejudicial no seu trabalho;
- 4.9% dos bebedores já perderam o emprego devido ao consumo de álcool;
- 9% admitem que o uso de álcool já teve efeito prejudicial na sua família e relacionamento.

O ciúme patológico pode coexistir com qualquer diagnóstico psiquiátrico. No entanto nos últimos anos tem havido crescente interesse nos aspectos forenses dessa patologia ligados ao uso, abuso e dependência de álcool, uma vez que muitos deles resultam em violência grave. Em pacientes dependentes de álcool, a prevalência do ciúme patológico pode estar em cerca de 27 a 34%. [5]

Um estudo realizado nos Estados Unidos, pela Universidade de Houston, mostrou que pessoas ciumentas tendem a abusar de bebidas alcoólicas com mais facilidade. De acordo com os pesquisadores, pessoas dependentes de um relacionamento amoroso e que imaginam serem vítimas de traição apresentam maior risco de recorrer ao álcool como forma de aliviar seus problemas. [8]

Foram entrevistadas 277 pessoas, sendo 87% mulheres. Os resultados mostraram que as pessoas que dependem de um relacionamento para a autoestima, tendem a beber por causa do ciúme que sentem.

Vimos nesse texto que o ciúme patológico é uma perturbação total, um transtorno afetivo gravíssimo, que pode levar a outro problema grave, o alcoolismo. Finalizo, alertando que é consenso entre os especialistas que não existe consumo de álcool isento de riscos.

*Adriana Moraes - Psicóloga da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina) - Especialista em Dependência Química – Colaboradora do site da UNIAD (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas).
** Dr. Claudio Jerônimo da Silva - Psiquiatra da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina) - Diretor da Unidade Recomeço Helvétia, Diretor da UNIAD (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas).

Referências:
[1] Ciúme: o medo da perda. Eduardo Ferreira Santos. São Paulo: Claridade, 2003.
[2] Ciúme: entre o amor e a loucura. Wimer Bottura Júnior. São Paulo: República Literária, 2003.
[3] http://www.ebc.com.br/noticias/brasil/2014/02/alcoolismo-e-a-principal-causa-de-afastamento-do-trabalho-por-transtorno
[4] Integração de competências no desempenho da atividade judiciária com usuários e dependentes de drogas / organização de Paulina do Carmo A. Vieira e Arthur Guerra de Andrade. Brasília: Ministério da Justiça, Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, 2015.
[5] Dependência Química: prevenção, tratamento e políticas públicas / Alessandra Diehl – Daniel Cruz Cordeiro – Ronaldo Laranjeira - Porto Alegre: Artmed, 2011.
[6] Infográfico SPDM: https://www.spdm.org.br/saude/noticias/item/2266-o-que-acontece-no-seu-corpo-quando-voce-ingere-bebida-alcoolica?
[7] http://inpad.org.br/lenad/resultados/alcool/resultados-preliminares/
[8] http://www.uniad.org.br/interatividade/noticias/item/23323-%C3%A9-ciumento?-voc%C3%AA-pode-ter-problemas-com-abuso-de-bebidas-alco%C3%B3licas
Fonte:UNIAD - Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas 

Violência em casais com homens alcoolistas


 

Problemas com bebidas alcoólicas estão relacionados à ocorrência de violência em casais norte-americanos.

A prevalência da agressão física por parte de um dos membros do casal demonstra que homens alcoolistas agridem 3 vezes mais suas mulheres do que homens abstêmios.

Esse estudo foi realizado para contribuir com novas informações na associação entre o consumo de álcool e violência entre os casais. Para tanto, foi utilizada uma amostra de 181 homens extraída de uma população de interesse clínico, em tratamento, com problemas importantes de dependência de álcool.

Esses indivíduos e suas parceiras foram recrutados e entrevistados sobre a associação do consumo de bebida alcoólica, uso de outras drogas e violência entre o casal.

Os resultados da pesquisa demonstraram que o consumo de bebidas alcoólicas está associado ao risco de agressões físicas e conflitos entre homens e mulheres. Os dados indicaram que o uso de álcool é um dos fatores que contribuem para o início de conflitos, sendo que a ingestão de grandes quantidades de bebidas alcoólicas está associada ao aumento de risco de violência.
Fonte:CISA - Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool