segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Crack: Como acabar com essa epidemia que devasta o país


 


VEJA
Blog Letra de Médico - Por: Ronaldo Laranjeira
(Foto: Ivan Pacheco)
É seguro dizer que o problema do crack não está mais localizado apenas em grandes centros. Na verdade, o consumo crescente de drogas em municípios de todos os portes é um fenômeno registrado pelo mundo. Apesar de não ser uma exclusividade brasileira, há aproximadamente uma década o país vivencia um estrondoso aumento de pontos de vendas de drogas, sendo cada vez mais comuns as notícias de aumento do consumo, ou de apreensões, em seu território, inclusive no interior.

Recentemente, virou notícia o fato de o número de apreensões de crack ter aumentado 206% na região de Jundiaí, em São Paulo, nos sete primeiros meses de 2016, em comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo a Delegacia Seccional local. No fim de agosto, um grupo de quatro pessoas foi preso em flagrante na cidade de Jaú, também em São Paulo, com 496 pedras de crack e até uma pedra bruta da droga, em um terminal rodoviário da cidade. Esses são apenas dois exemplos, de tantos que temos atualmente, que demonstram o alcance da enorme rede de distribuição de substâncias psicoativas existente no Brasil. Diversos fatores contribuem para isso, entre eles o fato de sermos vizinhos de países produtores de cocaína, além do baixo preço do crack traficado em terras brasileiras.

Dados como esses nos mostram que, apesar das apreensões, aparentemente a maioria dos governantes ainda não se deu conta da gravidade da situação que vivemos. Claramente existe uma dificuldade dos diversos níveis de governo em criar e adotar políticas públicas efetivas, que englobem enfrentamento, prevenção e tratamento contra as drogas.

O problema começa na produção e entrada de entorpecentes em território nacional. Como dito anteriormente, estamos ao lado de grandes produtores de cocaína, como Peru, Colômbia e Bolívia. Caso não seja criada uma rigorosa política, que culmine em ações que impeçam a importação e o abastecimento da rede distribuição atual, a epidemia do consumo de drogas continuará. Para evitar tal situação, é necessária uma interface entre os governos federal, estaduais e municipais, articulando ações conjuntas de saúde, na área social e de segurança.

Além disso, é necessário considerar abordagens realistas, baseadas nas melhores evidências científicas disponíveis, humanas, que ofereceram tratamento adequado e eficaz contra a dependência, resultando em um atendimento de qualidade para o dependente químico e sua família, muito afetada pelo problema.

Um exemplo de iniciativa que adota tais medidas com sucesso é o programa Recomeço, realizado no Estado de São Paulo. O programa tem estruturada uma linha de cuidados que adota ações de baixa até alta complexidade, contando com linhas na lógica de redução de danos e uma rede de clínicas e comunidades terapêuticas, com cerca de 3 000 vagas pelo estado, para desintoxicação ou prestação de apoio social aos usuários de drogas e familiares, combinando ações de prevenção, assistência social e tratamento. Tendo tal fato em mente, oferecer uma estrutura de tratamento adequada (inexistente em grande parte do país hoje) por meio do Sistema Único de Saúde a todos é de extrema urgência. Para isso é fundamental o financiamento adequado por meio do Ministério da Saúde e dos governos estaduais e municipais, assim como a adoção de políticas de tratamento eficazes e o abandono de técnicas ultrapassadas de atendimento.

O caminho é longo, mas, investindo em educação e esclarecimento da população sobre o uso de drogas e na criação de uma estrutura de atenção social e de saúde, é possível mudar positivamente o panorama no que diz respeito à epidemia do consumo de drogas no Brasil.
Fonte:UNIAD - Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas 


domingo, 25 de setembro de 2016

Droga que matou Prince é nova aposta de cartéis mexicanos


 


The New York Times
Prince morreu de uma overdose acidental de fentanil, droga 40 vezes mais potente que a heroína (Jamie Squire/Getty Images)

CIDADE DO MÉXICO — A droga que matou o músico Prince se tornou a menina dos olhos dos cartéis mexicanos por ser extremamente potente, popular nos Estados Unidos e imensamente lucrativa, segundo as autoridades americanas.

As autoridades policiais e alfandegárias dos Estados Unidos alertam que cartéis mexicanos estão usando seus próprios laboratórios para produzir essa droga, o fentanil, além de receberem carregamentos da China. Os cartéis então distribuem a substância através das suas vastas redes de contrabando, atendendo assim à crescente demanda americana por opiáceos e produtos farmacêuticos.

“É a nova migração dos cartéis em termos de obtenção de lucros”, disse Jack Riley, funcionário da DEA (agência antidrogas dos EUA). “Eles anteciparam isso.”

Não se sabe ao certo como Prince obtinha a droga que, segundo as autoridades, causou a overdose fatal sofrida por ele em abril. Os médicos podem prescrever o fentanil, um opiáceo sintético, para pacientes com câncer e para cuidados paliativos. Mas a presença de fentanil ilícito está crescendo a níveis inéditos desde 2006, quando uma série de mortes por overdose nos EUA foi vinculada a um único laboratório no México.

Autoridades dizem que a popularidade do fentanil entre os cartéis mexicanos segue um roteiro bem conhecido: a repressão ao uso indiscriminado de remédios vendidos sob receita fez disparar o preço de medicamentos como oxicodona, e os cartéis apostaram que usuários optariam pela heroína — mais barata, mais abundante e relativamente mais fácil de se conseguir.

Agora, o fentanil se tornou versão mais lucrativa — e letal — desse fenômeno. Um quilo de heroína comprado na Colômbia por US$ 6.000 pode ser vendido no atacado nos EUA a US$ 80 mil, segundo a DEA. Já um quilo de fentanil puro, adquirido na China por menos de US$ 5.000, é tão potente que pode render de 16 a 24 kg depois de “batizado” com substâncias como talco e cafeína. Cada quilo é então vendido no atacado pelos mesmos US$ 80 mil da heroína – gerando um lucro total próximo de US$ 1,6 milhão (R$ 5,6 milhões).

As autoridades mexicanas temem que seus colegas americanos estejam culpando o México apesar de disporem apenas de dados limitados sobre o tráfico de fentanil entre os dois países. Já houve, no entanto, apreensões notáveis dessa droga no México. Alguns meses atrás, agentes mexicanos descobriram 27 kg de fentanil – dosagem equivalente a quase uma tonelada de heroína – numa remota pista de pouso no Estado de Sinaloa. Os policiais também encontraram cerca de 19 mil comprimidos de fentanil manipulados para terem o aspecto da oxicodona. Dois homens detidos no local eram membros do Cartel de Sinaloa.

“Depois da apreensão de 2015, intensificamos os esforços entre todos os órgãos públicos”, disse o general Inocente Fermín Hernández, chefe do Centro Nacional de Planejamento, Análise e Informação para o Combate à Delinquência (Cenapi) do México. “Percebemos que precisamos tomar as medidas apropriadas para saber e investigar se estamos lidando com o fentanil cada vez que encontramos um laboratório.”

Sua potência, cerca de 40 vezes maior que a da heroína, fez do fentanil uma opção popular e uma aposta rentável para os traficantes. Vendida em formas menos puras, a droga pode ser 20 vezes mais lucrativa que a heroína.

Agentes de fronteira dos EUA apreenderam no ano passado 90 kg de opioides sintéticos, como o fentanil, segundo R. Gil Kerlikowske, comissário de Alfândegas e Proteção de Fronteiras do país. A quantidade parece pequena, mas em 2014, por exemplo, apenas 4 kg foram apreendidos.

As mortes por overdose cresceram: entre o final de 2013 e o final de 2014, mais de 700 americanos perderam a vida por causa de overdoses associadas ao fentanil.

O fentanil muitas vezes é misturado à heroína para intensificar sua potência. Ele também pode ser diluído e ingerido diretamente, em doses muito pequenas, equivalentes a alguns grãos de sal. Cada vez mais, no entanto, essa droga é oferecida na forma de falsos comprimidos de oxicodona.

Alguns especialistas apontam uma falta de dados concretos que comprovem o envolvimento dos cartéis. A maioria das apreensões de narcóticos no México ainda consiste principalmente de heroína, cocaína e metanfetaminas.

Agentes antidrogas dizem que a distribuição do fentanil espelha os padrões usados pelos cartéis para outros produtos, como heroína. Segundo Riley, uma gangue de rua de Chicago, a Gangster Disciples, que distribui drogas para cartéis na cidade, espalha o fentanil no mercado, chegando a New Hampshire.

Mas Hernández disse que, até onde o governo mexicano sabe, houve apenas quatro episódios envolvendo o fentanil no país na última década. Segundo ele, porém, a procura por essa droga é nova, e sua prevalência provavelmente é pouco detectada.
O fentanil, geralmente apresentado na forma de um pó branco, pode ser introduzido por contato com a pele. Dada a sua potência, pode causar uma overdose apenas pelo toque, especialmente no caso de não usuários.

Hernández disse não haver registro de morte de mexicanos por overdose de fentanil. Mas ele observou que o México é mais frequentemente um fornecedor de drogas do que um usuário.
“O fentanil é muito difícil de detectar à primeira vista”, disse. “Nem todo mundo é capaz de reconhecê-lo.”
Fonte:UNIAD - Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas