
O Estupro e as Drogas
Izilda Alves
Não entendi. Como uma pesquisa nacional sobre estupro não cita entre as causas bebida alcoólica, drogas como ecstasy e GHB , bailes funk, pankadões e cracolândias? Estou me referindo à pesquisa “Polícia precisa falar de estupro”, divulgada hoje pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e realizada com 3.625 entrevistas em 217 municípios pelo Datafolha.
Estupro representa pesadelo para as mulheres no Brasil. Não sei como foram os critérios para as perguntas desta pesquisa. Mas é inacreditável ignorar nesse estudo o maior problema de saúde pública hoje no Brasil, a dependência de drogas, a banalização do uso , facilitando portanto casos de estupro em todo o país. Segundo a polícia de São Paulo, uso do ecstasy aumentou o número de estupros de jovens em São Paulo. Segundo o Instituto Médico Legal, 70% do atendimento a pessoas vivas para exames são de mulheres que sofreram violências como agressões e estupros por companheiros ou parentes bêbados ou drogados.
Um catálogo cada vez mais amplo de drogas vêm sendo usadas para se cometer abusos sexuais. O objetivo é sempre o mesmo: anular a vontade da vítima e transformá-la em um "brinquedo" na mão no agressor. Drogas que apagam lembranças do ataque.
Como mostra a maioria das reportagens sobre estupro, as vítimas contam que:
-estavam bêbadas
-foram sedadas com drogas como ecstasy, GHB e em golpes como o Boa noite Cinderela
-foram violentadas por pais ou parentes bêbados
-nos bailes funk ,foram estupradas quando estavam sob efeito de bebida e outras drogas
-nos pankadões , estupradas nas ruas após beberem e consumirem drogas
-nas cracolândias, estupradas como pagamento da droga
Mas a pesquisa não perguntou e não cita estes preocupantes fatos que marcam todo o país.A pesquisa do Fórum cita dois fatos inacreditáveis como causas de estupro:
-“a mulher se comportou de forma inadequada” e aí fica a pergunta o que é se comportar de forma adequada?
-“a mulher anda sozinha na rua ou em certos locais considerados inapropriados”, quer dizer que há locais onde só homens podem andar nas cidades? Que são lugares inapropriados? Como prefeituras admitem lugares onde mulheres não podem andar no Brasil?
Estupro é crime violento. A vítima sofre lesões nos órgãos genitais, contusões e fraturas. Outras consequências são gravidez indesejada e doenças sexualmente transmissíveis. Causa também fobias, ansiedade e tentativas de suicídio. Não sei como foram os critérios para as perguntas desta pesquisa. Mas ao que tudo indica foi feita como se no Brasil houvesse rigoroso controle da bebida alcoólica e cumprimento das leis que proíbem tráfico de drogas em todo o país.
Izilda Alves
Jornalista da Rádio Jovem Pan
Consultora do Amor Exigente
Por Arthur Guerra de Andrade
Psiquiatra e Presidente Executivo do CISA
O consumo de álcool faz parte da cultura humana há milhares de anos, muito atrelado a relações de socialização e não costuma causar problemas para a maioria dos consumidores. Inclusive, pode até levar a potenciais benefícios para o sistema cardiovascular, quando consumido de forma leve a moderada. Entretanto, não podemos relevar o fato de que uma minoria das pessoas desenvolve situações graves, cujos danos para a saúde individual, coletiva e econômica são expressivos. Portanto, é importante nos atentarmos a este tema, tanto em termos de prevenção como tratamento – e para isso a informação é ferramenta essencial.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), não existe um limite considerado seguro para consumo de álcool. Os riscos de problemas de saúde aumentam especialmente se o indivíduo bebe mais de 2 doses* por dia e não deixa de beber ao menos 2 dias na semana. Alguns adultos, mesmo com consumo moderado, estarão mais vulneráveis aos problemas decorrentes do beber ao longo da vida, assim como algumas pessoas em situações nas quais o álcool pode ser prejudicial em qualquer quantidade – por exemplo, menores de 18 anos, gestantes, quem pretende dirigir ou quem faz uso de medicamentos que interagem com o álcool.
O Brasil tem avançado bastante em termos de prevenção – a exemplo da Lei nº 13.106/2015, que tornou crime vender ou entregar bebidas alcoólicas a crianças ou adolescentes, e as mudanças na legislação sobre álcool e direção somadas à fiscalização da chamada “Lei Seca” (Lei nº 12.760/2012). Além de estabelecer tolerância zero para o consumo de álcool por motoristas em todo país, aumentou a punição e ampliou as possibilidades de provas para a infração.
Em relação à dependência de álcool (alcoolismo), é importante esclarecer que é uma doença crônica e multifatorial; isso significa que diversos fatores contribuem para o seu desenvolvimento, incluindo a quantidade e frequência de uso do álcool, a condição de saúde do indivíduo e fatores genéticos, psicossociais e ambientais.
Dados divulgados pela OMS indicam que, em 2010, 5,6% da população brasileira apresentava algum transtorno relacionado ao uso de álcool e 2,8%, dependência. Alguns de seus sintomas podem ser: forte desejo de beber, perda do controle, uso continuado apesar das consequências negativas, maior prioridade dada ao uso da substância em detrimento de outras atividades e obrigações, tolerância (necessidade de doses maiores de álcool para atingir o mesmo efeito anterior) e abstinência (sudorese, tremores e ansiedade quando a pessoa para de beber).
A dependência do álcool causa grande impacto na vida do indivíduo e também daqueles que estão ao seu redor. A família, em especial, é peça-chave tanto na prevenção do uso nocivo, como nos casos em que o problema já está instalado. Inclusive, não são poucas as vezes em que o tratamento inicia-se pela família, principalmente porque o indivíduo não aceita seu problema, não reconhece que o uso de bebidas alcoólicas lhe traz prejuízos ou está desmotivado para buscar ajuda.
Felizmente, a maioria das pessoas com transtornos por uso de álcool que busca tratamento é capaz de reduzir ou até cessar seu consumo. Ainda, estima-se que um terço das pessoas não apresenta sintomas após um ano em tratamento. Entender as opções disponíveis, como terapias comportamentais e medicamentosas, é o primeiro passo e a adesão ao método de escolha será fundamental. No Brasil, os mais conhecidos tratamentos gratuitos especializados são os Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS-AD) e Hospitais públicos e conveniados ao Sistema Único de Saúde (SUS).
De maneira geral, estamos construindo ferramentas para prevenir o uso nocivo do álcool e temos linhas de tratamento cada vez mais eficazes. Contudo, é importante frisar que nenhuma ação isolada ou a implementação de novas leis poderá resolver este sério problema enquanto a população também não se envolver e apoiar. Somente com um trabalho em conjunto, que contemple governantes, pais e familiares, profissionais da saúde, academia, educadores, instituições privadas e a sociedade como um todo, poderemos nos aproximar de uma solução eficaz para este desafio que permeia o Brasil e o mundo.
* Uma dose padrão contém aproximadamente de 10 g a 12 g de álcool puro, o equivalente a uma lata de cerveja (330 ml) ou uma dose de destilados (30 ml) ou ainda a uma taça de vinho (100 ml).
Fonte:CISA - Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool